Será que sempre foi assim?
Será que as pessoas sempre tiveram tanta dificuldade em comunicar bem, ou será que este é um "problema" cada vez mais presente?
É um tema muito mais falado no contexto dos relacionamentos, mas quanto mais reparo nele, mais percebo que vai muito além disso.
Para mim, boa comunicação está intimamente ligada à consideração que temos pelos outros.
Comunicar não é apenas falar. Pode manifestar-se de muitas formas: deixar as nossas intenções claras, dizer o que pensamos, dar contexto, mostrar interesse, ser consistente, estar presente ou simplesmente não deixar a outra pessoa a tentar perceber aquilo que poderia ter sido dito.
E comunicar também não é apenas falar quando alguma coisa está mal ou nos incomoda.
É também saber reconhecer o que está bem.
- Demonstrar apreciação.
- Mostrar interesse.
- Dar feedback.
Fazer a outra pessoa perceber que aquilo que faz não passa despercebido.
Às vezes parece que complicamos coisas que não precisam de ser complicadas.
Não é mais fácil dizer ou mostrar que estamos, ou não estamos, interessados em alguém, em vez de deixar a outra pessoa a tentar perceber?
Não é mais fácil dar algum contexto sobre o que se está a passar em vez de simplesmente desaparecer?
Não é mais fácil dizer que não conseguimos fazer um plano quando sabemos disso, ou pelo menos avisar com antecedência, em vez de cancelar à última da hora?
Ser vago não é ser interessante ou misterioso, é não saber falar.
Claro que ninguém tem de estar sempre disponível, responder imediatamente ou justificar cada decisão que toma.
Todos temos a nossa vida, os nossos problemas, as nossas prioridades e os nossos limites.
Consideração não significa estar sempre disponível para os outros.
Significa perceber que, quando as nossas decisões envolvem outras pessoas, existe uma responsabilidade mínima para com elas.
Quando cancelamos um plano à última da hora, não estamos apenas a alterar a nossa agenda. Estamos a alterar a agenda de outra pessoa também.
Quando desaparecemos sem contexto, deixamos alguém a preencher os espaços vazios com as suas próprias interpretações.
Quando somos inconsistentes, obrigamos os outros a tentar perceber qual é afinal a nossa posição.
E, muitas vezes, o problema nem está naquilo que fazemos. Está na forma como o fazemos.
- Podemos dizer que não.
- Podemos mudar de ideias.
- Podemos estar ocupados.
- Podemos não estar interessados.
- Podemos precisar de espaço.
Nada disso é, por si só, falta de consideração.
A falta de consideração está muitas vezes em fazer os outros lidar com as consequências das nossas decisões sem sequer reconhecer que essas consequências existem.
Porque há sempre uma diferença:
- Entre não podermos estar disponíveis e fazermos alguém sentir que o seu tempo não importa.
- Entre não sabermos o que queremos e deixarmos alguém eternamente a tentar descobrir.
- Entre precisarmos de espaço e simplesmente desaparecermos sem qualquer explicação.
No fundo, comunicar bem não significa ter sempre a resposta certa.
Não significa saber exatamente o que queremos.
Nem significa conseguir estar presente para toda a gente.
Significa ter consciência de que aquilo que fazemos também chega a alguém.
- Podemos ser claros.
- Podemos dar contexto.
- Podemos dizer que não.
- Podemos avisar com antecedência.
- Podemos demonstrar quando apreciamos alguma coisa.
- Podemos reconhecer o esforço de alguém.
- Podemos simplesmente comunicar quando alguma coisa mudou.
Não precisamos de complicar.
Precisamos apenas de nos lembrar.
Do outro lado das nossas mensagens, dos nossos silêncios, das nossas decisões e das nossas ausências, há alguém.
E talvez comunicar bem seja, no fundo, isso: não apenas saber expressar aquilo que pensamos ou sentimos, mas ter consideração suficiente para nos lembrarmos de quem está do outro lado.