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· 4 min de leitura

Não sangres em quem não te feriu

Às vezes, as feridas que outras pessoas deixaram em nós acabam por definir a forma como tratamos quem nunca nos fez mal.

  • Relationships
  • Trust
  • Healing
  • Reflection

Já reparaste como uma experiência pode mudar a forma como vemos todas as que vêm depois?

Alguém mente-nos, e começamos a desconfiar mais.

Alguém abandona-nos, e começamos a procurar sinais de abandono em todo o lado.

Alguém trai a nossa confiança, e passamos a pensar duas vezes antes de confiar verdadeiramente em alguém.

Faz sentido.

Quando alguém nos magoa, é natural que alguma coisa mude em nós. Começamos a proteger-nos. A criar limites. A ter mais cuidado com aquilo que mostramos e com quem deixamos entrar.

E talvez, naquela altura, essa proteção tenha sido necessária.

O problema começa quando levamos essa proteção para pessoas que nunca nos fizeram nada.

Conhecemos alguém novo, mas em vez de conhecermos essa pessoa por aquilo que ela é, começamos inconscientemente a conhecê-la através daquilo que alguém fez antes dela.

Se alguém nos mentiu no passado, podemos começar a desconfiar de quem nos diz a verdade.

Se alguém nos abandonou, podemos interpretar qualquer distância como o início de outro abandono.

Se alguém nos traiu, podemos procurar sinais de traição mesmo quando não existe nenhum.

A pessoa nova chega sem nos ter feito nada, mas já está a ser julgada por um crime que não cometeu.

Foi aí que ouvi uma frase que ficou comigo:

"Don't bleed on who didn't cut you."

É uma frase simples, mas diz muito.

Não sangres em quem não te feriu.


Aprender com aquilo que nos aconteceu é saudável. Deixar que aquilo que nos aconteceu decida como tratamos todas as pessoas que aparecem depois é outra coisa.

  • Existe uma diferença entre estar atento e estar à espera de ser magoado.
  • Entre reconhecer sinais e procurar problemas.
  • Entre ter limites e manter toda a gente à distância.

Nem toda a cautela é sabedoria. Às vezes, é apenas medo com uma boa justificação.


Imagina alguém que teve uma amizade em que acabou por ser traído.

Anos mais tarde, conhece alguém novo.

Essa pessoa demora a responder.

"Já vi isto antes."

Cancela um plano.

"Não posso confiar nela."

Começa a passar mais tempo com outras pessoas.

"Eventualmente vai afastar-se de mim."

Sem perceber, começa a fechar-se. Partilha menos. Confia menos. Está sempre com um pé atrás.

A outra pessoa sente essa distância e, naturalmente, começa também a aproximar-se menos.

E então chega a conclusão:

"Eu sabia. As pessoas acabam sempre por me desiludir."

Mas talvez não tenham acabado.

Talvez simplesmente nunca lhes tenha sido dada a oportunidade de serem diferentes.

É fácil esquecermo-nos de que as nossas defesas também podem afetar quem está do outro lado.

Queremos evitar voltar a sentir aquilo que sentimos, mas ao fazê-lo podemos acabar por impedir que alguém nos conheça verdadeiramente.

Queremos evitar ser abandonados, mas mantemo-nos tão distantes que nunca deixamos ninguém aproximar-se.

Queremos evitar ser magoados, mas também deixamos de dar espaço para sermos surpreendidos.

E existe aqui uma ironia difícil de ignorar.

Às vezes, a nossa tentativa de nos protegermos daquilo que aconteceu no passado acaba por criar exatamente a distância que tememos no presente.


  • Isto não significa que devamos confiar cegamente.
  • Não significa ignorar sinais porque queremos acreditar no melhor das pessoas.
  • Não significa dar novas oportunidades a quem já nos mostrou repetidamente quem é.

Significa apenas não transformar uma experiência numa sentença.

  • A pessoa que nos magoou pode ter-nos ensinado alguma coisa.
  • Pode ter-nos mostrado aquilo que não queremos voltar a aceitar.
  • Pode ter-nos ensinado a estabelecer limites.

Mas não deve ter o poder de decidir como tratamos todas as pessoas que aparecem depois dela.

  • Porque uma pessoa nova não devia ter de provar que não é alguém do nosso passado.

  • Não devia ter de pagar uma dívida que não contraiu.

  • Não devia ter de conquistar uma confiança que outra pessoa destruiu.

  • Devemos observar quem ela é, claro.

  • Devemos prestar atenção às suas ações.

Mas também devemos permitir que a sua história seja escrita pelas suas próprias escolhas.


Há uma diferença entre carregar uma cicatriz e continuar a viver como se ainda estivéssemos feridos.

  • Uma cicatriz lembra-nos do que aconteceu.
  • Uma ferida aberta faz-nos reagir como se ainda estivesse a acontecer.

E talvez parte de seguir em frente seja aprender a distinguir as duas.

Porque a pessoa que nos feriu pode já ter desaparecido da nossa vida.

Pode já nem pensar em nós.

Mas nós podemos continuar a levá-la connosco para todas as relações que construímos depois.

E talvez seja essa uma das formas mais silenciosas de o passado continuar a controlar o presente.

Por isso, aprende com o que aconteceu.

Protege-te quando for preciso.

Estabelece limites.

Mas quando alguém novo aparecer, dá-lhe a oportunidade de ser exatamente isso:

novo.

Não sangres em quem não te feriu.

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