Já reparaste como uma experiência pode mudar a forma como vemos todas as que vêm depois?
Alguém mente-nos, e começamos a desconfiar mais.
Alguém abandona-nos, e começamos a procurar sinais de abandono em todo o lado.
Alguém trai a nossa confiança, e passamos a pensar duas vezes antes de confiar verdadeiramente em alguém.
Faz sentido.
Quando alguém nos magoa, é natural que alguma coisa mude em nós. Começamos a proteger-nos. A criar limites. A ter mais cuidado com aquilo que mostramos e com quem deixamos entrar.
E talvez, naquela altura, essa proteção tenha sido necessária.
O problema começa quando levamos essa proteção para pessoas que nunca nos fizeram nada.
Conhecemos alguém novo, mas em vez de conhecermos essa pessoa por aquilo que ela é, começamos inconscientemente a conhecê-la através daquilo que alguém fez antes dela.
Se alguém nos mentiu no passado, podemos começar a desconfiar de quem nos diz a verdade.
Se alguém nos abandonou, podemos interpretar qualquer distância como o início de outro abandono.
Se alguém nos traiu, podemos procurar sinais de traição mesmo quando não existe nenhum.
A pessoa nova chega sem nos ter feito nada, mas já está a ser julgada por um crime que não cometeu.
Foi aí que ouvi uma frase que ficou comigo:
"Don't bleed on who didn't cut you."
É uma frase simples, mas diz muito.
Não sangres em quem não te feriu.
Aprender com aquilo que nos aconteceu é saudável. Deixar que aquilo que nos aconteceu decida como tratamos todas as pessoas que aparecem depois é outra coisa.
- Existe uma diferença entre estar atento e estar à espera de ser magoado.
- Entre reconhecer sinais e procurar problemas.
- Entre ter limites e manter toda a gente à distância.
Nem toda a cautela é sabedoria. Às vezes, é apenas medo com uma boa justificação.
Imagina alguém que teve uma amizade em que acabou por ser traído.
Anos mais tarde, conhece alguém novo.
Essa pessoa demora a responder.
"Já vi isto antes."
Cancela um plano.
"Não posso confiar nela."
Começa a passar mais tempo com outras pessoas.
"Eventualmente vai afastar-se de mim."
Sem perceber, começa a fechar-se. Partilha menos. Confia menos. Está sempre com um pé atrás.
A outra pessoa sente essa distância e, naturalmente, começa também a aproximar-se menos.
E então chega a conclusão:
"Eu sabia. As pessoas acabam sempre por me desiludir."
Mas talvez não tenham acabado.
Talvez simplesmente nunca lhes tenha sido dada a oportunidade de serem diferentes.
É fácil esquecermo-nos de que as nossas defesas também podem afetar quem está do outro lado.
Queremos evitar voltar a sentir aquilo que sentimos, mas ao fazê-lo podemos acabar por impedir que alguém nos conheça verdadeiramente.
Queremos evitar ser abandonados, mas mantemo-nos tão distantes que nunca deixamos ninguém aproximar-se.
Queremos evitar ser magoados, mas também deixamos de dar espaço para sermos surpreendidos.
E existe aqui uma ironia difícil de ignorar.
Às vezes, a nossa tentativa de nos protegermos daquilo que aconteceu no passado acaba por criar exatamente a distância que tememos no presente.
- Isto não significa que devamos confiar cegamente.
- Não significa ignorar sinais porque queremos acreditar no melhor das pessoas.
- Não significa dar novas oportunidades a quem já nos mostrou repetidamente quem é.
Significa apenas não transformar uma experiência numa sentença.
- A pessoa que nos magoou pode ter-nos ensinado alguma coisa.
- Pode ter-nos mostrado aquilo que não queremos voltar a aceitar.
- Pode ter-nos ensinado a estabelecer limites.
Mas não deve ter o poder de decidir como tratamos todas as pessoas que aparecem depois dela.
-
Porque uma pessoa nova não devia ter de provar que não é alguém do nosso passado.
-
Não devia ter de pagar uma dívida que não contraiu.
-
Não devia ter de conquistar uma confiança que outra pessoa destruiu.
-
Devemos observar quem ela é, claro.
-
Devemos prestar atenção às suas ações.
Mas também devemos permitir que a sua história seja escrita pelas suas próprias escolhas.
Há uma diferença entre carregar uma cicatriz e continuar a viver como se ainda estivéssemos feridos.
- Uma cicatriz lembra-nos do que aconteceu.
- Uma ferida aberta faz-nos reagir como se ainda estivesse a acontecer.
E talvez parte de seguir em frente seja aprender a distinguir as duas.
Porque a pessoa que nos feriu pode já ter desaparecido da nossa vida.
Pode já nem pensar em nós.
Mas nós podemos continuar a levá-la connosco para todas as relações que construímos depois.
E talvez seja essa uma das formas mais silenciosas de o passado continuar a controlar o presente.
Por isso, aprende com o que aconteceu.
Protege-te quando for preciso.
Estabelece limites.
Mas quando alguém novo aparecer, dá-lhe a oportunidade de ser exatamente isso:
novo.
Não sangres em quem não te feriu.
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